Amanheceu. São sete horas da manhã e eu
estou com preguiça de levantar da cama. Acho que acordei há trinta minutos. O
meu compromisso das oito horas eu não sei se posso considerar que seja
importante, porque eu não estou com a mínima vontade de ir. Sim, é importante,
como é importante dormir. Para falar a
verdade, não quero levantar da cama, quero dormir de novo, desligar o aparelho
despertador e me despertar quando o meu corpo quiser, quando a minha mente
achar que deve voltar a funcionar. Não, minto. Também não quero dormir, porque embora
eu esteja preguiçoso, não estou com sono o suficiente para dormir, apenas não
quero ter esforços, nem físico nem psicológico. O problema do cotidiano, aquilo
que me deixa cansado, nem sempre é a distância, a dificuldade de me locomover
dentro da cidade, o trânsito, a poluição sonora. O que me cansa de verdade são
as fofocas que tenho que ouvir logo cedo no ônibus ou na padaria, as pessoas
reclamando da vida, esposa reclamando do marido e dos filhos, pessoas falando
mal da vizinha, outras falando que a vida é ruim, que pretende desistir de tudo
e começar uma nova vida. Não só isso, mas os problemas do país que os
noticiários da televisão mostram também me cansam. É morte pra lá, acidente pra
cá, enchentes nas grandes cidades, deslizamentos de terras nas regiões
litorâneas do sudeste. Nossa! Tudo me cansa. Não quero, eu não vou levantar da
cama. Prefiro dormir de novo. Verdade, acabei me esquecendo, não estou com
sono. Não irei dormir. Mas, também, não quero acordar de verdade. Quero ficar
assim, inerte, coberto e sem muitos movimentos físicos. Quero ler uma revista,
acho. Não, revista não, porque as revistas só mostram desgraças, também, ou
moda, ou fala sobre novelas, ou fofocas, tudo aquilo que eu ouço na padaria e no
ônibus, tudo aquilo que dá audiência na televisão. Melhor não. Melhor ligar a
televisão. Não! Televisão, também, não. Pensei demais, e pensar dá sono. Acho
que é por isso que muitas pessoas preferem não pensar, evitam fazer tanto
esforço assim. Acho melhor eu dormir. Sim. Até logo!
quarta-feira, 3 de julho de 2013
quarta-feira, 29 de maio de 2013
AMAR, DESEJAR, VIVER
No relacionamento amoroso não somos dois, somos um. Duas
partes que completam um corpo, que formam o casal.
A individualidade deve ser mantida, como as tarefas diárias,
os compromissos particulares, os estudos, o trabalho, o lazer. Mas os planos
futuros, os desejos, os objetivos de vida devem ser pensados a dois, sem manter
a individualidade.
Namoro é presente, casamento também. Mas os apaixonados
antecipam o futuro e vivem o sonho de futuramente estarem juntos. Para os
apaixonados não existe tempo, o presente é passado e o futuro é presente. Tudo
é agora, já!
Quando amamos, amamos também os objetivos de vida da outra
pessoa. Se somos o que pensamos e o que fazemos, então amamos aquilo que o
outro pensa e faz.
Pensamos pelo outro e esperamos que o outro pense por si e
por nós mesmos. Progredimos se soubermos que o outro também deseja progredir, e
somente crescemos se sentirmos que o outro também está crescendo.
Cada um deve ansiar crescer individualmente para depois
querer crescer junto com alguém. E Isa sabia enxergar isso, mas não posso dizer
o mesmo de Rogério.
Isa fazia planos para o casal desde que passou a viver o relacionamento,
há pouco mais de quatro anos. Ela não somente estava com o ele como se sentia
ser, também, o próprio Rogério. Ela era o casal, porque vivia duas vidas em
uma. Os seus planos passaram a depender dos planos do namorado, não porque Isa
dependia dele para ser feliz, mas porque escolheu dividir com esse rapaz a felicidade
que já possuía. Ela era feliz sozinha, e com ele essa felicidade aumentava.
Quem ama não divide felicidade. Multiplica.
Isa sonhava com a faculdade de Química, sonhava em construir família, sonhava com o emprego dos dois. Sabia
que um sonho dependia do outro, que o emprego como profissional de química
dependia da faculdade, e que o dinheiro necessário para construir a sua família
dependia do dinheiro do bom emprego no ramo da química que ela só conseguiria
se conseguisse se formar. Ela investia nos seus próprios sonhos e os incluía
dentro dos planos do casal. Os seus sonhos eram compartilhados com Rogério, que
ao contrário, não sentia necessidade de sonhar a dois, e não porque ele era
egoísta ou individualista, mas porque lhe faltava os seus próprios sonhos.
Rogério possuía poucos sonhos. O futuro era planejado apenas
com o querer, mas faltava o fazer. Dentro de quatro anos, ele evoluiu pouco.
Isa o conheceu de um jeito, e ele ainda era o mesmo. Trabalhava às vezes e não
estudava. Isa até procurava incentiva-lo a escolher um curso, almejar um novo
trabalho, fazer com que tivesse novas expectativas de vida, de futuro, de
casal. Primeiro a expectativa de futuro próprio e consequentemente a do casal.
Rogério até demostrou algumas vezes estar decidido a buscar um novo emprego e
estudar algum curso, mas este longo tempo que tivera para decidir ainda pareceu-lhe
pouco, porque as vontades não saíram das palavras, não aconteceram. Isa se esforçava
sozinha, sonhava sozinha, crescia sozinha.
O gosto pelo namoro, aos poucos, foi se perdendo. Ela, que
vivia o futuro no presente e fazia o presente valer a pena para a construção do
futuro do casal, não conseguia perceber o mesmo esforço vindo de Rogério, que
não possuía grande expectativa de vida própria, e menos ainda expectativa de
vida duradoura para o casal.
O sonho é o alimento do amor. Quem não sonha por si, não sonha
a dois. Quem não sonha é incapaz de amar.
domingo, 31 de março de 2013
PRESA NA LIBERDADE
Já não sabia mais como agir
diante da situação. Tentara várias vezes antes da última separação. Perdera a
conta de quantas separações haviam somado. Uma soma de desgostos, de ofensas,
de revoltas a troco de nada.
Sim, nada era concreto. Tudo era
paixão, fogo ardente sem amor.
A paixão é concreta, mas dentro
do amor. Fora é outra coisa.
Mariana sabia muito bem sobre a
paixão. Um dia belas palavras, outro brigas e xingamentos. Tudo aquilo que
conseguia de positivo com ele durava pouco, semanas ou algum momento. Virou
hábito, e tudo que é hábito e não é saudável, destrói.
O hábito só compensa quando é
saudável.
Ele havia se acostumado com o
hábito da ilusão. Tinha tudo nas mãos: algumas mulheres, fama dentro do seu
grupo de convívio, um corpo bonito, presença marcante. Famoso conquistador. Nas
festas, sempre acompanhado por amigos e mulheres. Possuía um pouco de tudo,
também o amor de Mariana.
Mas as posses eram passageiras,
como o dinheiro que passa de mão em mão, que circula, que não fica.
Ele, portanto, estava sempre
rodeado de pessoas, mas nunca as mesmas pessoas. Estava sempre rodeado de
mulheres, mas nunca as mesmas mulheres. Tinha tudo e ao mesmo tempo nada. Nada concreto,
tudo passageiro.
O amor de Mariana talvez não
fosse concreto, no sentido de prática, era apenas sentimento, mas era um sentimento real. Se fosse passar, ainda não havia passado. Sabia que o amor era presente,
porque a dor era presente.
Mariana pensava em desistir, não
porque queria, mas porque era necessário. Mas o pensamento nada vale sem a
ação.
Para o pensamento ser válido, a
ação deve ser favorável às vontades.
Mariana não errava, uma vez que
servia ao sentimento e satisfazia as suas vontades, mas não se tratava apenas
de satisfação momentânea. Ela pensava no momento e depois, ele no
momento, apenas. Ela sabia muito bem o que era viver de incertezas, ele sabia muito bem
ter certezas sobre ela.
Ele queria liberdade. A liberdade
que ele buscava era a mesma liberdade de quem se sente livre por não pertencer
a nada, não se apegar a nada. A falsa e famosa liberdade, a liberdade de quem
não sabe amar. A liberdade de Mariana se encontrava presa dentro de si, dentro
do sentimento, dentro da maior liberdade que uma pessoa pode possuir: o amor.
Liberdade não é se desapegar de
tudo. Liberdade é se prender em tudo que é saudável.
Embora ela sofresse um pouco
mais, ela sonhava, enquanto ele vivia dentro das suas falsas teorias de
liberdade. Ela era quem realmente tinha tudo, embora parecesse o contrário.
Não existe liberdade mais
completa do que a liberdade que se encontra presa dentro do amor.
Ele agia como a maioria agia, como a maioria queria que ele agisse. A sua opinião era a opinião da maioria. Ela agia como o coração pedia, como a emoção pedia, como o sentimento pedia.
Ela era livre. Ele não.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
A MOEDA DA FELICIDADE
Dinheiro é necessidade, amor é
felicidade.
Não digo apenas o amor, mas os
bons sentimentos cultivados durante a vida, como a amizade. Sim, a amizade
também é amor. A maioria das pessoas, infelizmente, não consegue explorar prazeres
onde o dinheiro não possui valor: no mundo dos sentimentos.
Roberto se encaixa dentro dessa
maioria.
A sua casa não era mais um lar, e
sim um escritório. Roberto fazia da mesa da cozinha uma escrivaninha de assinar
cheques, do sofá estante de guardar livros, do banheiro uma lan house. Pior, da
cama, onde deveria ser o seu ninho de amor com Julia, sua esposa, uma lixeira
de papéis amassados e amontoados. Ele saia do seu ambiente de trabalho e se
dirigia para casa, mas o trabalho o seguia. Não possuía horário de descanso,
muito menos horário para a desanimada mulher.
Julia não trabalhava, mas tinha
tudo: carro do ano, duas funcionárias, uma para a cozinha e outra para a limpeza
do restante da casa, casa na praia, roupas de todas as marcas e para todos os
momentos, sapatos, bolsas. Tudo comprado com o dinheiro do maridão, famoso e
rico empresário.
Mas ela sentia que faltava algo.
Ela se sentia insatisfeita. Julia não tinha tudo.
Definitivamente Julia sabe que não
tinha tudo. Ela não tinha um só momento de exclusividade com Roberto. Quando
conseguia arrastá-lo quase nunca a um jantar fora de casa, o empresário sempre
tinha de interromper a refeição e saía disfarçadamente para atender ao
telefone. Quando se deitavam na cama, após Julia ter arrumado a papelada de seu
cônjuge, por conta do trabalho que ele domesticou, ela era surpreendida apenas
com comentários sobre a rotina de trabalho de seu companheiro, sobre os
negócios fechados durante o dia ou sobre as contas a pagar ao final do mês. O
jeito era virar para o lado e dormir. Até dormir a deixava exausta.
Roberto podia dar tudo, desde joias
caríssimas até estruturas domiciliares, mas não sabia dar o essencial, o
simples, o barato, aquilo de que todos têm direito. Não sabia amar. A ânsia de
enriquecer-se o tornava desatencioso, frio, inquieto.
O amor não suporta pressa, pede
calor, necessita de atenção.
A vontade de ter filhos foi
deixando Julia. A vontade de amar Roberto foi saindo de dentro dela, como
pássaros que escapam da gaiola e deixam os lares.
Para reconquistá-la, Roberto
enviava presentes à Julia, que eram entregues pelo motorista da empresa, deixava caixinhas contendo joias em cima da cama, escondia sapatos novos
atrás da porta do banheiro. Que ilusão! Ele não possuía para refletir e descobrir que um beijo bem molhado, que uma massagem nas costas, que uma noite
de amor intenso ou apenas um simples jantar com os celulares desligados reconquistariam
aquele amor adormecido, que permanecia em Julia, mas não era reacendido todos
os dias.
O casamento acabou.
Quando Roberto descobriu que a
sua companheira não precisava de quatro casas, sendo uma delas na praia, não
precisava de uma gaveta inteira de colares, e nem de uma sapateira entupida de
sapatos, já era tarde demais. Ele não tinha tempo nem para chorar, muito menos
para tentar de novo, pois a empresa passava por momentos difíceis, e a imagem
de bom empresário precisava ser reconquistada.
A empresa faliu, e junto com ela
a felicidade do pobre rapaz. Ele que apostou toda a sua felicidade em algo
material, viu a sua própria felicidade sendo negociada a troco de dinheiro,
quando precisou vender parte de seu percentual de participação nos negócios da
firma aos seus sócios
.
O dinheiro não é capaz de manter um
amor, nem mesmo de conquistá-lo. Também não compra uma amizade. A felicidade
existe para aqueles que têm a capacidade de amar e ser amado, seja na amizade, seja
no namoro, seja no casamento.
A moeda que compra o amor é ele
próprio.
Assim, também, comprará a
felicidade.
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
ACEITAÇÃO E SUPERAÇÃO
Superar não é esquecer. Superar é
aceitar aquilo que aconteceu e seguir.
Ninguém consegue esquecer os
traumas. Todo trauma da infância é carregado durante a vida toda, querendo ou
não. Ninguém quer, vamos concordar. Mas a vida nem sempre acontece como
queremos.
A morte que não respeita a lei
natural dentro de uma família talvez seja um dos piores traumas que existem. A
mãe e o pai que perde um filho, o avô e a avó que perde um neto, o tio e a tia
que perde um sobrinho, enfim, a morte que vem precocemente aos mais novos, e
não primeiramente aos mais velhos, como seria o mais aceitável. Fatalidade ou
não, é difícil lidar com morte. Depois, talvez, as separações. Membros de uma
mesma família que brigam e se distanciam e casais que se separam são dois
exemplos. São infinidades de acontecimentos ao longo da vida que podem nos
desanimar.
Não existe morte que pode ser
esquecida. Não existe separação que pode ser esquecida. Todas são traumas.
Existem, porém, meios de aceitar aquilo que aconteceu e impedir longas
tristezas ao longo da caminhada terrena.
Não há sofrimento que não possa
ser superado.
Ninguém é totalmente
autossuficiente, que não precise de ajuda, que possa resolver tudo sozinho.
Procurar ajuda não é vergonha, seja ela espiritual, seja na literatura, seja na
religião.
Chorar e cultivar a dor não quer
dizer que a pessoa se importa. Muitos não choram mas sofrem por dentro.
Sofrimento não é regra.
Deixar que a tristeza sufoque ou
não é pessoal, faz parte da motivação diária. Nem todo tipo de ajuda é eficaz,
mas cabe a cada um escolher aquela que gera melhor resultado. Achar que deve
sofrer e ficar desmotivado a viver para o resto da vida é um egoísmo sem
tamanho.
Esquecendo ou não os traumas, o
sofrimento não pode ser duradouro e sufocante. Uma vida infeliz não merece ser
vivida.
A dor não deve ser eterna.
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