sexta-feira, 8 de novembro de 2013

SER SÉRIO BRINCANDO

Seriedade é bom, mas até certo ponto. Pessoa séria demais é densa, é pesada, é desagradável. Não se deve confundir seriedade com eficiência.

O bom jogador é aquele que brinca com a bola.

O bom surfista é aquele que brinca com a onda.

O bom músico é aquele que brinca com o instrumento.

O bom cantor é aquele que brinca com a letra.

O bom poeta é aquele que brinca com as palavras.

O bom namorado é aquele que brinca com a namorada.

O bom amigo é aquele que, em um momento de tristeza, brinca com o outro para fazê-lo rir.

A pessoa que não gera o riso também não gera felicidade. Basta a seriedade que o trabalho nos exige. Basta a seriedade que nos é exigida pelas obrigações da vida. Bastam os momentos em que somos forçados a sermos sérios.

A seriedade do cotidiano por si só, como o nome propõe, já é séria. Não precisamos acentuar tal rigidez nos momentos em que podemos brincar, rir, transmitir felicidade.

Como a água da chuva lava a poluição do ar, o telhado das casas, o lixo das ruas, a brincadeira também lava a alma.

Mais do que uma sugestão, brincar é uma obrigação, pode ser a salvação de um relacionamento. A brincadeira se renova com os momentos que se renovam, com os assuntos que se renovam, com os passeios que se renovam.

Com as brincadeiras, até as brigas se renovam. Briga que cansa é a mesma briga de sempre. Ciúmes que cansa são os mesmo ciúmes de sempre. Ciúmes e brigas que não se cristalizaram e viraram brincadeiras fortalecem ainda mais um relacionamento.

Com as brincadeiras, até o amor se renova.




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

APENAS PROMESSAS



Prometeu o mundo inteiro. Prometi o mundo inteiro.

Prometeu que iria visitar a Europa comigo e eu prometi que as passagens seriam por minha conta.

Prometeu que não brigaria por qualquer coisa e eu prometi que não brigaria por nada.
  
Prometeu que não mais ouviria as amigas, quando viessem dar palpites que só serviriam para destruir o namoro e eu prometi que jamais ouviria qualquer pessoa que ousasse dizer contra o nosso relacionamento.

Prometeu que se casaria comigo e eu prometi que me casaria com ela

Prometeu que guardaria todos os presentes que eu dei e ainda daria durante o nosso namoro e que, quando tivéssemos filhos, contaria a eles todas as histórias que vivemos, sobre os momentos em que aqueles presentes foram dados, e eu prometi que guardaria todas as cartas de amor que recebi dela enquanto namorávamos, a fim de, também, eu poder mostrar aos nossos filhos quando fôssemos pais.

Prometeu que jamais me abandonaria e eu prometi que não procuraria outra mulher, porque ela era tudo que eu sempre quis.

Prometeu que iria envelhecer comigo e eu prometi comprar o par de bengalas.

Prometeu que me amaria para sempre e eu prometi que ela era a mulher da minha vida.

Prometeu morrer logo depois de mim, caso eu morresse primeiro, e eu prometi que iríamos morrer juntos.

Prometemos tudo isso e... Acabou.

Prometemos tanto e nos esquecemos de viver.

Acabou o relacionamento. Acabaram as promessas. Acabou o amor.

Amor não é contrato. Amor é ato. Só vive de promessas quem não sabe realizar. As promessas, ao contrário do que pensam, não são o alimento do relacionamento. Promessa gera medo, gera insegurança, gera pressão, gera compromisso, gera necessidade. Não se mede amor por necessidade.

Amor não é necessidade. Necessidade não garante amor. Medida não garante amor. Enquanto ela se preocupava em medir o amor, eu amava sem medida.

Amor de verdade é amor de mentira, a mesma mentira que não precisa provar a verdade de amar. No meio de tantas verdades, tudo acabou em mentira.

Eu já acreditei em tanta mentira que, hoje, tudo me parece verdade.

sábado, 13 de julho de 2013

VIVER É COMPARTILHAR

Não foi o ambiente que criou os pensamentos que se transformaram em conversa naquela noite, mas o local os inspiraram. Não foram pensamentos vagos, e sim lembranças de experiências vividas.

A música tem esse poder de nos dirigir às lembranças.

E nessa noite, a música fez muito bem feito esse papel, buscando lembranças no interior da alma e trazendo-as para fora através das palavras. A conversa se formava entre um gole de cerveja e outro, entre uma música e outra. Falamos sobre futebol, sobre jogos de videogame, sobre músicas. Também, e não mais importante do que os outros assuntos, falamos sobre antigos relacionamentos, sobre pessoas que há algum tempo ainda faziam falta, que em um passado próximo era quase impossível falar sobre elas. Pessoas que ficaram esquecidas no tempo.

Esquecer não é apagar da memória, mas conseguir falar sem dor, lembrar sem sofrimento.

O riso ia e vinha, a música acabava e logo recomeçava, uma brincadeira surgia, divertia e logo era substituída por outra.

As pessoas não podem ser substituídas. O resto pode.

Entre um beijo na boca e um carinho no braço, a conversa se desenvolvia, as lembranças logo eram esquecidas de novo, para um dia, talvez, serem relembradas. Ou não.

A noite, também, assim como a música, tem o poder de despertar lembranças. Mas, diferente da música, a noite geralmente promove novos pensamentos formando soluções aos problemas passados.

A noite permite um cenário de fantasias para que os pensamentos possam transbordar de nossas almas e serem colocados em questionamentos. Melhor do que apenas pensar é falar, compartilhar, dividir aquilo que hoje são lembranças.

A atenção foi inteira, o carinho foi inteiro, o riso foi inteiro, o beijo foi inteiro.

Tudo que é dividido a dois, na verdade, é inteiro.  

quarta-feira, 3 de julho de 2013

PENSAR DÁ SONO

               Amanheceu. São sete horas da manhã e eu estou com preguiça de levantar da cama. Acho que acordei há trinta minutos. O meu compromisso das oito horas eu não sei se posso considerar que seja importante, porque eu não estou com a mínima vontade de ir. Sim, é importante, como é importante dormir.  Para falar a verdade, não quero levantar da cama, quero dormir de novo, desligar o aparelho despertador e me despertar quando o meu corpo quiser, quando a minha mente achar que deve voltar a funcionar. Não, minto. Também não quero dormir, porque embora eu esteja preguiçoso, não estou com sono o suficiente para dormir, apenas não quero ter esforços, nem físico nem psicológico. O problema do cotidiano, aquilo que me deixa cansado, nem sempre é a distância, a dificuldade de me locomover dentro da cidade, o trânsito, a poluição sonora. O que me cansa de verdade são as fofocas que tenho que ouvir logo cedo no ônibus ou na padaria, as pessoas reclamando da vida, esposa reclamando do marido e dos filhos, pessoas falando mal da vizinha, outras falando que a vida é ruim, que pretende desistir de tudo e começar uma nova vida. Não só isso, mas os problemas do país que os noticiários da televisão mostram também me cansam. É morte pra lá, acidente pra cá, enchentes nas grandes cidades, deslizamentos de terras nas regiões litorâneas do sudeste. Nossa! Tudo me cansa. Não quero, eu não vou levantar da cama. Prefiro dormir de novo. Verdade, acabei me esquecendo, não estou com sono. Não irei dormir. Mas, também, não quero acordar de verdade. Quero ficar assim, inerte, coberto e sem muitos movimentos físicos. Quero ler uma revista, acho. Não, revista não, porque as revistas só mostram desgraças, também, ou moda, ou fala sobre novelas, ou fofocas, tudo aquilo que eu ouço na padaria e no ônibus, tudo aquilo que dá audiência na televisão. Melhor não. Melhor ligar a televisão. Não! Televisão, também, não. Pensei demais, e pensar dá sono. Acho que é por isso que muitas pessoas preferem não pensar, evitam fazer tanto esforço assim. Acho melhor eu dormir. Sim. Até logo!

quarta-feira, 29 de maio de 2013

AMAR, DESEJAR, VIVER

No relacionamento amoroso não somos dois, somos um. Duas partes que completam um corpo, que formam o casal.
  
A individualidade deve ser mantida, como as tarefas diárias, os compromissos particulares, os estudos, o trabalho, o lazer. Mas os planos futuros, os desejos, os objetivos de vida devem ser pensados a dois, sem manter a individualidade.

Namoro é presente, casamento também. Mas os apaixonados antecipam o futuro e vivem o sonho de futuramente estarem juntos. Para os apaixonados não existe tempo, o presente é passado e o futuro é presente. Tudo é agora, já!

Quando amamos, amamos também os objetivos de vida da outra pessoa. Se somos o que pensamos e o que fazemos, então amamos aquilo que o outro pensa e faz.

Pensamos pelo outro e esperamos que o outro pense por si e por nós mesmos. Progredimos se soubermos que o outro também deseja progredir, e somente crescemos se sentirmos que o outro também está crescendo.

Cada um deve ansiar crescer individualmente para depois querer crescer junto com alguém. E Isa sabia enxergar isso, mas não posso dizer o mesmo de Rogério.

Isa fazia planos para o casal desde que passou a viver o relacionamento, há pouco mais de quatro anos. Ela não somente estava com o ele como se sentia ser, também, o próprio Rogério. Ela era o casal, porque vivia duas vidas em uma. Os seus planos passaram a depender dos planos do namorado, não porque Isa dependia dele para ser feliz, mas porque escolheu dividir com esse rapaz a felicidade que já possuía. Ela era feliz sozinha, e com ele essa felicidade aumentava.

Quem ama não divide felicidade. Multiplica.

Isa sonhava com a faculdade de Química, sonhava em construir família, sonhava com o emprego dos dois. Sabia que um sonho dependia do outro, que o emprego como profissional de química dependia da faculdade, e que o dinheiro necessário para construir a sua família dependia do dinheiro do bom emprego no ramo da química que ela só conseguiria se conseguisse se formar. Ela investia nos seus próprios sonhos e os incluía dentro dos planos do casal. Os seus sonhos eram compartilhados com Rogério, que ao contrário, não sentia necessidade de sonhar a dois, e não porque ele era egoísta ou individualista, mas porque lhe faltava os seus próprios sonhos.

Rogério possuía poucos sonhos. O futuro era planejado apenas com o querer, mas faltava o fazer. Dentro de quatro anos, ele evoluiu pouco. Isa o conheceu de um jeito, e ele ainda era o mesmo. Trabalhava às vezes e não estudava. Isa até procurava incentiva-lo a escolher um curso, almejar um novo trabalho, fazer com que tivesse novas expectativas de vida, de futuro, de casal. Primeiro a expectativa de futuro próprio e consequentemente a do casal. Rogério até demostrou algumas vezes estar decidido a buscar um novo emprego e estudar algum curso, mas este longo tempo que tivera para decidir ainda pareceu-lhe pouco, porque as vontades não saíram das palavras, não aconteceram. Isa se esforçava sozinha, sonhava sozinha, crescia sozinha.

O gosto pelo namoro, aos poucos, foi se perdendo. Ela, que vivia o futuro no presente e fazia o presente valer a pena para a construção do futuro do casal, não conseguia perceber o mesmo esforço vindo de Rogério, que não possuía grande expectativa de vida própria, e menos ainda expectativa de vida duradoura para o casal.

O sonho é o alimento do amor. Quem não sonha por si, não sonha a dois. Quem não sonha é incapaz de amar.

O namoro continuou, mas sem futuro, sem alimento. 

domingo, 31 de março de 2013

PRESA NA LIBERDADE


Já não sabia mais como agir diante da situação. Tentara várias vezes antes da última separação. Perdera a conta de quantas separações haviam somado. Uma soma de desgostos, de ofensas, de revoltas a troco de nada.

Sim, nada era concreto. Tudo era paixão, fogo ardente sem amor.

A paixão é concreta, mas dentro do amor. Fora é outra coisa.

Mariana sabia muito bem sobre a paixão. Um dia belas palavras, outro brigas e xingamentos. Tudo aquilo que conseguia de positivo com ele durava pouco, semanas ou algum momento. Virou hábito, e tudo que é hábito e não é saudável, destrói.

O hábito só compensa quando é saudável.

Ele havia se acostumado com o hábito da ilusão. Tinha tudo nas mãos: algumas mulheres, fama dentro do seu grupo de convívio, um corpo bonito, presença marcante. Famoso conquistador. Nas festas, sempre acompanhado por amigos e mulheres. Possuía um pouco de tudo, também o amor de Mariana.

Mas as posses eram passageiras, como o dinheiro que passa de mão em mão, que circula, que não fica.

Ele, portanto, estava sempre rodeado de pessoas, mas nunca as mesmas pessoas. Estava sempre rodeado de mulheres, mas nunca as mesmas mulheres. Tinha tudo e ao mesmo tempo nada. Nada concreto, tudo passageiro.

O amor de Mariana talvez não fosse concreto, no sentido de prática, era apenas sentimento, mas era um sentimento real. Se fosse passar, ainda não havia passado. Sabia que o amor era presente, porque a dor era presente.

Mariana pensava em desistir, não porque queria, mas porque era necessário. Mas o pensamento nada vale sem a ação.

Para o pensamento ser válido, a ação deve ser favorável às vontades.

Mariana não errava, uma vez que servia ao sentimento e satisfazia as suas vontades, mas não se tratava apenas de satisfação momentânea. Ela pensava no momento e depois, ele no momento, apenas. Ela sabia muito bem o que era viver de incertezas, ele sabia muito bem ter certezas sobre ela.

Ele queria liberdade. A liberdade que ele buscava era a mesma liberdade de quem se sente livre por não pertencer a nada, não se apegar a nada. A falsa e famosa liberdade, a liberdade de quem não sabe amar. A liberdade de Mariana se encontrava presa dentro de si, dentro do sentimento, dentro da maior liberdade que uma pessoa pode possuir: o amor.

Liberdade não é se desapegar de tudo. Liberdade é se prender em tudo que é saudável.

Embora ela sofresse um pouco mais, ela sonhava, enquanto ele vivia dentro das suas falsas teorias de liberdade. Ela era quem realmente tinha tudo, embora parecesse o contrário.

Não existe liberdade mais completa do que a liberdade que se encontra presa dentro do amor. 

Ele agia como a maioria agia, como a maioria queria que ele agisse. A sua opinião era a opinião da maioria. Ela agia como o coração pedia, como a emoção pedia, como o sentimento pedia.

Ela era livre. Ele não.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A MOEDA DA FELICIDADE


Dinheiro é necessidade, amor é felicidade.

Não digo apenas o amor, mas os bons sentimentos cultivados durante a vida, como a amizade. Sim, a amizade também é amor. A maioria das pessoas, infelizmente, não consegue explorar prazeres onde o dinheiro não possui valor: no mundo dos sentimentos.

Roberto se encaixa dentro dessa maioria.

A sua casa não era mais um lar, e sim um escritório. Roberto fazia da mesa da cozinha uma escrivaninha de assinar cheques, do sofá estante de guardar livros, do banheiro uma lan house. Pior, da cama, onde deveria ser o seu ninho de amor com Julia, sua esposa, uma lixeira de papéis amassados e amontoados. Ele saia do seu ambiente de trabalho e se dirigia para casa, mas o trabalho o seguia. Não possuía horário de descanso, muito menos horário para a desanimada mulher.

Julia não trabalhava, mas tinha tudo: carro do ano, duas funcionárias, uma para a cozinha e outra para a limpeza do restante da casa, casa na praia, roupas de todas as marcas e para todos os momentos, sapatos, bolsas. Tudo comprado com o dinheiro do maridão, famoso e rico empresário.

Mas ela sentia que faltava algo. Ela se sentia insatisfeita. Julia não tinha tudo.

Definitivamente Julia sabe que não tinha tudo. Ela não tinha um só momento de exclusividade com Roberto. Quando conseguia arrastá-lo quase nunca a um jantar fora de casa, o empresário sempre tinha de interromper a refeição e saía disfarçadamente para atender ao telefone. Quando se deitavam na cama, após Julia ter arrumado a papelada de seu cônjuge, por conta do trabalho que ele domesticou, ela era surpreendida apenas com comentários sobre a rotina de trabalho de seu companheiro, sobre os negócios fechados durante o dia ou sobre as contas a pagar ao final do mês. O jeito era virar para o lado e dormir. Até dormir a deixava exausta.
Roberto podia dar tudo, desde joias caríssimas até estruturas domiciliares, mas não sabia dar o essencial, o simples, o barato, aquilo de que todos têm direito. Não sabia amar. A ânsia de enriquecer-se o tornava desatencioso, frio, inquieto.

O amor não suporta pressa, pede calor, necessita de atenção.

A vontade de ter filhos foi deixando Julia. A vontade de amar Roberto foi saindo de dentro dela, como pássaros que escapam da gaiola e deixam os lares.
Para reconquistá-la, Roberto enviava presentes à Julia, que eram entregues pelo motorista da empresa, deixava caixinhas contendo joias em cima da cama, escondia sapatos novos atrás da porta do banheiro. Que ilusão! Ele não possuía para refletir e descobrir que um beijo bem molhado, que uma massagem nas costas, que uma noite de amor intenso ou apenas um simples jantar com os celulares desligados reconquistariam aquele amor adormecido, que permanecia em Julia, mas não era reacendido todos os dias.

O casamento acabou.

Quando Roberto descobriu que a sua companheira não precisava de quatro casas, sendo uma delas na praia, não precisava de uma gaveta inteira de colares, e nem de uma sapateira entupida de sapatos, já era tarde demais. Ele não tinha tempo nem para chorar, muito menos para tentar de novo, pois a empresa passava por momentos difíceis, e a imagem de bom empresário precisava ser reconquistada.
A empresa faliu, e junto com ela a felicidade do pobre rapaz. Ele que apostou toda a sua felicidade em algo material, viu a sua própria felicidade sendo negociada a troco de dinheiro, quando precisou vender parte de seu percentual de participação nos negócios da firma aos seus sócios
.
O dinheiro não é capaz de manter um amor, nem mesmo de conquistá-lo. Também não compra uma amizade. A felicidade existe para aqueles que têm a capacidade de amar e ser amado, seja na amizade, seja no namoro, seja no casamento.

A moeda que compra o amor é ele próprio.

Assim, também, comprará a felicidade.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

ACEITAÇÃO E SUPERAÇÃO

Superar não é esquecer. Superar é aceitar aquilo que aconteceu e seguir.

Ninguém consegue esquecer os traumas. Todo trauma da infância é carregado durante a vida toda, querendo ou não. Ninguém quer, vamos concordar. Mas a vida nem sempre acontece como queremos.

A morte que não respeita a lei natural dentro de uma família talvez seja um dos piores traumas que existem. A mãe e o pai que perde um filho, o avô e a avó que perde um neto, o tio e a tia que perde um sobrinho, enfim, a morte que vem precocemente aos mais novos, e não primeiramente aos mais velhos, como seria o mais aceitável. Fatalidade ou não, é difícil lidar com morte. Depois, talvez, as separações. Membros de uma mesma família que brigam e se distanciam e casais que se separam são dois exemplos. São infinidades de acontecimentos ao longo da vida que podem nos desanimar.

Não existe morte que pode ser esquecida. Não existe separação que pode ser esquecida. Todas são traumas. Existem, porém, meios de aceitar aquilo que aconteceu e impedir longas tristezas ao longo da caminhada terrena.

Não há sofrimento que não possa ser superado.

Ninguém é totalmente autossuficiente, que não precise de ajuda, que possa resolver tudo sozinho. Procurar ajuda não é vergonha, seja ela espiritual, seja na literatura, seja na religião.
Chorar e cultivar a dor não quer dizer que a pessoa se importa. Muitos não choram mas sofrem por dentro. Sofrimento não é regra.

Deixar que a tristeza sufoque ou não é pessoal, faz parte da motivação diária. Nem todo tipo de ajuda é eficaz, mas cabe a cada um escolher aquela que gera melhor resultado. Achar que deve sofrer e ficar desmotivado a viver para o resto da vida é um egoísmo sem tamanho.

Esquecendo ou não os traumas, o sofrimento não pode ser duradouro e sufocante. Uma vida infeliz não merece ser vivida.

A dor não deve ser eterna. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

NAMORO NÃO É PRISÃO


Um namoro não deve ser encarado como um aprisionamento.

Um namoro deve complementar a vida de ambas as partes.

O problema é que muitas pessoas, quando começam a namorar, se sentem donos da vida do outro. Se antes o rapaz jogava futebol aos domingos, conversava com alguns amigos durante algum dia da semana, e a garota fazia aulas de jazz, balé, ginástica, tinha tempo para as amigas, não têm por que abandonarem essas atividades por causa de um namoro. São duas vidas, duas personalidades, duas pessoas com gostos particulares. O namoro dará a chance de compartilhar com a outra pessoa, também, vontades parecidas, desejos iguais, gostos que serão criados a partir do hábito do casal. Se vivido dessa forma, a chance do relacionamento dar certo é muito grande.

Outro problema é a pessoa não permitir que o parceiro tenha contato com pessoas de sexo oposto: a garota não pode ter amigo e o garoto não pode ter amiga. Quando qualquer conversa se torna motivo de desconfiança. Quando uma mensagem no facebook gera uma longa briga. Quando as senhas dos sites de relacionamentos devem ser compartilhadas. Quando as mensagens do celular devem ser vasculhadas diariamente. Quando a pessoa se torna prisioneira da outra. A outra pessoa já não é mais companheira, aquele que completa a sua vida, que lhe dá motivos para sorrir, mas sim um detetive, que quer lhe botar medo, que quer diminuir ao máximo o seu grupo de convívio, fechar o seu mundo no dele.  

Namoros assim têm prazo de validade.

Conversar com outras pessoas não é traição. Proibir demais é insegurança, é medo exagerado, é falta de amor próprio.

Não existe namoro ideal. O ideal de quem namora é respeitar o espaço particular do outro, confiar mais, incentivar que tenha amigos e que os visite sempre, que faça ginástica, que jogue futebol, que faça balé, que continue a sua rotina.

Quando uma pessoa está feliz consigo, têm amigos, conversa com outras pessoas, ela consegue ser mais feliz e fazer o seu parceiro amoroso mais feliz, pois. O namoro, portanto, cumpre o seu papel, que é o de completar, e não de substituir.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

MEIOS DE MANIPULAÇÃO


Os meios de comunicação estão presentes por toda parte. Um simples folheto de supermercado, cartazes, rádio, televisão, enfim, todos fazem parte do nosso cotidiano e querem nos dizer alguma coisa. A eficácia desses comunicadores depende do nível de entendimento do público alvo, assim como da qualidade e transparência sobre aquilo que está sendo divulgado ou anunciado.
   
Mas o problema está na banalização dos meios de comunicação. Estes, que antes serviam para entretenimento, propaganda e informação, hoje servem como meios de interesses políticos e manipulação em massa, traçando idealismos e modos. Estão, portanto, nos dizendo o tempo todo em quais políticos e partidos devemos votar, como devemos nos vestir, onde devemos investir nosso dinheiro, os lugares para onde devemos viajar nas férias, qual corte de cabelo devemos solicitar ao nosso cabeleireiro, qual esporte devemos gostar, quais livros devemos ler. Por trás disso tudo, estão os políticos, as empresas do ramo da moda, empresários que trabalham agenciando viagens e divulgando turismo, banqueiros, dirigentes de times 
de futebol. E, atualmente no Brasil, dirigentes de lutas, como o M.M.A.

Com tudo isso, a televisão, principalmente, tem sido o meio de manipulação mais completo da atualidade, porque envolve o áudio e a imagem. A indústria da publicidade e propaganda investe pesado na qualidade da imagem, colocando nos comerciais atores famosos, cenários criativos, imagens bem vivas e coloridas, assim como na qualidade do áudio, complementando com músicas viciantes, que penetram na nossa cabeça, nos fazendo sentir excluídos caso não compremos aquilo que está sendo proposto. A televisão, também, promove políticos, músicos, atores, modelos, enfim, promove aquele que pagar mais ou que der mais vantagens financeiras e audiência à emissora. Depois da televisão, vem as revistas de grande circulação, assim como os jornais das grandes capitais ou importantes centros econômicos.

Aquilo que vemos e ouvimos acaba se tornando verdadeiras poluições ideológicas e nos convidam a levar uma vida que beneficia políticos e empresários, movimentando o capital em uma velocidade benéfica a economia do país. Fiquemos, portanto, sempre atentos, para que não nos transformemos em seres alienados.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

PALAVRAS


A correria do cotidiano nos leva a vários questionamentos. Dúvidas sobre o que fazer, o que cursar na faculdade, como realizar determinado sonho, como conseguir buscar algo que deseja há muito tempo, paixões, ciúmes, vícios, namoros, enfim, tudo aquilo que faz parte de uma vida inteira, ou de uma fase, pior ainda, de um mesmo momento, são torturadoras. As dúvidas variam dependendo da idade, ou da necessidade.

Para um cursando do ensino médio, é normal as dúvidas sobre qual curso prestar na hora do vestibular, como conciliar um namoro e a falta de tempo durante a faculdade, o tempo para os amigos e as longas conversas diárias por telefone ou presencialmente, trabalhos escolares, estágios, academia, curso de línguas, entre outros fatores que englobam a vida dos estudantes, ou universitários. Para um adulto, pai ou mãe de família, a responsabilidades aumentam, e as dúvidas, normalmente, necessitam de respostas mais rápidas, como levar um filho ao médico, compras do supermercados, contas mensais, trânsito, cuidar do lar, dar atenção aos filhos, farmácia, gastos familiares, se dedicar ao marido ou esposa, viagens a trabalho, viagens de férias, entre outras dezenas de tarefas que fazem parte da rotina de uma família. Com tanta correria, parece impossível encontrar liberdade e tempo para decidir com calma sobre algum imprevisto, que são normais na vida das pessoas.

Muitas vezes, porém, as principais causas dos desesperos que atingem as pessoas não estão ligados a fatores externos, mesmo que estejam relacionados. Falo, portanto, das enfermidades da alma, das perturbações psicológicas.

As pessoas, em grande parcela, cruzam o caminho de outras não com o intuito de ajudar, mas com o propósito de atrapalhar, ser dificuldade na tarefa do próximo. Dizem palavras maldosas, querem ver o outro sempre aborrecido, nunca mais felizes que si. Pessoas que abrem a boca o tempo todo para criticar, condenar, e nunca para perdoar, dar conforto, dar atenção, prestigiar. É mais fácil dizer que odeia a dizer que ama. É mais cômodo criticar a ajudar o companheiro.

Entre os males que afetam a todos, o maior está no descontrole emocional. Como se não bastasse as dificuldades citadas anteriormente, próprias dessa vida agitada, pessoas colocam mais dificuldades para evitar que outras prosperem. Aquelas que recebem insultos constantes, ofensas diárias, vindas de pessoas que querem atrapalhar ou simplesmente tomar conta da vida alheia, muitas vezes ficam abaladas, deprimidas.

Assim como as palavras machucam, elas também têm o poder de confortar. Ao invés de sempre criticar, agredir ou ofender ao próximo, as pessoas têm o poder, também, de incentivar, apoiar, confortar, impulsionar a vida de muitas outras pessoas, através das palavras.

As palavras sim, como muitos dizem, são mágicas.

Critique menos, atrapalhe menos. Faça mais, ame mais.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A ALEGRIA DO VIZINHO INCOMODA

Cristina não aguentava mais aquela mesma vida de sempre. Os dias eram muito longos, e as novidades quase não existiam. Vivia para o marido. Tinha tempo de sobra, mas o tempo era gasto da mesma forma.
Fazer a mesma coisa todos os dias é como almoçar no mesmo restaurante de sempre, a comida é a mesma, mas o paladar começa a não suportar o mesmo sabor.
Em uma manhã, senhor Eugenio chegou mais cedo, colocou o paletó em sua cadeira preta de madeira rústica e muito bem acabada, peça que ganhara de herança pouco antes da morte de dona Aparecida, sua avó paterna. Meio cansado, dirigiu-se até a esposa, que penteava o cabelo recém lavado. Cristina acabara de sair do banho e foi surpreendida com a chegada repentina do marido:
Por que chegou mais cedo hoje, amor? O que houve?
Amanhã bem cedo estarei saindo de viagem, sem previsão de retorno. Sérgio, meu patrão, irá inaugurar uma filial da empresa na capital, e quer que eu tome conta dos negócios até que tudo se ajeite.
Cristina pensou, e como não tinha outra opção que não fosse a de desejar boa viagem ao marido, sorriu e disse:
Estarei esperando ansiosa pela sua volta, não demore. Telefone sempre, para contar-me as novidades. Sentirei sua falta!
E assim ele fez. Eugenio partiu antes que o sol nascesse. Cristina não conseguiu voltar ao sono, mas naquele dia resolver dar-se folga. Aquela casa não era a mesma sem o marido. O desconforto da casa vazia trazia total insegurança. Levantou-se e se dirigiu-se até a copa, tomou o telefone em suas mãos e ligou para a sua amiga, Viviane:
Que tal darmos uma volta? O dia está tão lindo para ser aproveitado dentro de uma casa, sem a luz do sol.
Viviane aceitou, embora não acreditasse na ligação de Cristina, menos ainda na importância da amiga em ficar dentro de casa. Parou alguns instantes até digerir a surpresa da ligação, depois vestiu-se e foi ao encontro dela. Decidiram, então, que iriam ao parque.
Assim fizeram todos os dias, durante duas semanas. Cristina saía de casa e voltava sempre com um sorriso no rosto, mesmo quando a amiga não podia acompanhá-la. Nunca se viu tão livre como nos últimos quinze dias. O ar que transmitia aos vizinhos era de extrema felicidade, e isso gerava desconforto à toda vizinhança.
Os comentários eram sempre os mesmos, na padaria da esquina, no bar, no cabeleireiro do quarteirão ao lado, enfim, por todo o bairro: o que estaria fazendo a senhora Cristina? Será que estava aproveitando a ausência do marido para traí-lo? Como poderia uma pessoa que raramente  colocava os pés para fora de casa estar saindo tanto?
Senhor Roberto, após ver dona Cristina saindo de casa muito cedo, comentou com o Joaquim, velho cliente que alí se encontrava tomando uma xícara de café na sua padaria, como fazia todos os dias:
Pobre Eugênio! Ele nem imagina que sua mulher esteja passando pelos braços de outro homem. Trabalhando na capital para garantir o sustento e o conforto do lar, enquanto a esposa se diverte como quer, aproveitando a ausência masculina do seu lar para se engracinhar com um fulano qualquer. Ninguém é feliz todos os dias…
É na ausência do patrão que se conhece o empregado. Respondeu senhor Joaquim, movimentando a cabeça negativamente.
O tempo, agora, era bem utilizado. O espaço que recebeu, após a viagem do marido, fez dona Cristina descobrir que o prazer está muito além da limitação de qualquer meio. O espaço já não era somente a sua casa, mas diversos lugares. Quanto mais espaços explorava, mais livre ela se sentia.

Depois de muito tempo o marido voltou, e os vizinhos estranharam. Perceberam que dona Cristina conituava saindo. O que eles não sabiam é que ela havia contado tudo que fizera antes do seu retorno, e o marido havia ficado contente por ela ter achado um espaço próprio, que a agradava mais a ficar somente presa dentro de casa. Os dois, formando um casal, eram pessoas distintas, agora livres dentro do próprio espaço, e isso contribuía inclusive para o bem estar do casal.

Cristina era outra. Percebeu, então, que não se tratava de pura exploração de espaços, mas da sua própria liberdade.

Os comentários continuavam. Os vizinhos não entendiam como o senhor Eugenio ainda não tinha desconfiado da suposta traição, vista por todos. A alegria dos colegas de rua era comentar sobre a vida do casal misterioso, e a alegria do casal era comentar, durante o jantar, como tinha sido o dia de cada um dos dois. Ele falava sobre seu trabalho, e ela sobre os novos lugares que visitava durante todos os dias, das compras que fazia, das tardes na casa da amiga, ou dos encontros com a mesma companheira de infância no parque da cidade.

Eugenio percebia uma esposa diferente, mais aberta, contente com uma vida tão simples, mas diferente daquela dona de casa de antes. A alegria dela transmitia alegria para a vida do casal. Os comentários que chegavam aos seus ouvidos causava-lhe repúdio. Ele jamais demosntrou  que sabia das saídas de dona Cristina, justamente para se divertir com aquilo que chegava aos seus ouvidos sobre os dias em que esteve fora.

A novidade, seguida de alegria, causa desconforto ao próximo. Se a vida de alguém não tem novidade, tomar conta da vida do outro é mais interessante.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A ROTINA PODE SER DIFERENTE


O dia começou tranquilo. Luciano não tinha hora para acordar, mas resolveu pular da cama mais cedo para aproveitar o sol da manhã.  O calor era agradável, embora houvesse a necessidade de manter o ventilador ligado. Abriu a porta da frente e abaixou-se, recolhendo o jornal, que estava próximo ao tapete. As notícias pareciam sempre as mesmas: acidentes envolvendo veículos de transporte, enchentes, políticos atacando a oposição, população reclamando da falta de cuidados da administração pública aos mais necessitados, e algumas vezes boas notícias, como a inauguração de uma nova escola, de um novo posto de saúde, ou reformas e doações à casas assistenciais. Mas o diferencial, aquilo que mudava sempre, eram as crônicas e os artigos. Através desses textos, Luciano podia ter uma leitura diferente, todos os dias.

Descobrira cedo, enquanto adolescente, que mesmo que uma coisa parecesse perfeita, havia sempre algum defeito. Nada nem ninguém era perfeito.

Os lugares que frequentava eram sempre os mesmos, com as mesmas pessoas. Mas a conversa era diferente, a forma de conduzir as suas ações era diferente. Não importava o lugar e nem com quem estivesse. O trabalho podia ser o mesmo, o clube, a academia, o cabeleireiro, os horários, tudo igual, porém, havia sempre oportunidades que o possibilitava fazer tudo de outras formas. Luciano sabia fazer as coisas serem diferentes, com as mesmas pessoas, nos mesmos lugares, e isso o tornava diferente.

Havia, no lugar do sossego, algo que incomodava Luciano quando pensava adiante, no futuro. Aquilo que é incerto incomoda. O passado às vezes incomoda, também.  Como recordações de infância podiam incomodar tanto um adulto formado, maduro, vivido, como ele?  Pois é, ele não tinha total controle emocional. Ninguém tem total controle da própria emoção.  Mas aquilo que Luciano fazia, todos os dias, não deixava passado algum tomar conta das novidades, do presente,  da rotina diferente que ele levava. As recordações não traziam saudade, mas o desejo de fazer tudo diferente. E fazer diferente era com ele.

Nesse dia, após ler o jornal, Luciano tomou o seu banho da manhã, e foi almoçar. À tarde, tomou um café diferente, na mesma conveniência de sempre. Na academia, onde fazia musculação todos os dias, ele fez exercícios diferentes. Na mesma locadora, ao final do dia, ele alugou um filme diferente. Ao pedir o jantar, no mesmo restaurante de sempre, ele pediu um prato diferente. Antes de dormir, tomou um livro em suas mãos, mas resolveu fazer a leitura estando sentado, e não deitado, como sempre. Leu pouco mais de dois capítulos e se deitou, adormecendo em seguida.


segunda-feira, 4 de junho de 2012

LIBERDADE DE DESTINO


É mais fácil culpar o outro a admitir a própria falha. O erro sempre vem acompanhado de disfarce. O motivo de a sua vida estar difícil nunca é pela própria incompetência, pela falta de esforço, pela falta de arriscar, de tentar. O destino fica com a culpa.

Há quem diz que cada um tem a sua trajetória terrena traçada, o rico é rico porque nasceu para ser rico, e o pobre o mesmo motivo. Deus é quem escolhe a aquisição material de cada ser, e a conquista não depende de nós. Se fosse assim, por que existem aqueles que não acreditam em Deus? Já que ele manipula os nossos caminhos, não criaria aqueles que não permitem a influência do Senhor em nossas vidas. A liberdade de crença vem junto com a criação, e a influência dele, segundo a Bíblia, depende da nossa fé e da permissão que cada um concede a ele. Essas passagens já derrubam a idéia de que Deus manipula totalmente as nossas vidas, caso contrário, não teria sentido a nossa existência terrena. Auxiliar, ajudar, iluminar, oferecer conforto espiritual é uma coisa, manipular totalmente é outra. Esse nunca foi o papel de Deus, e nunca será.
Se somos livres, somos auxiliados por Deus e criadores de nossa própria obra. Prospera quem se esforça. Fica na mesmice quem não muda, quem não busca. Culpar a vida é mais fácil.

Não digo que todos nós nascemos com as mesmas oportunidades, ou que todos nós poderíamos ser milionários. Realização pessoal não é isso. O dinheiro traz realizações sim. A experiência e o conhecimento também as trazem. Porém, a abundância de um não completa a falta de outro. Assim como temos exemplos de favelados que hoje são grandes empresários, temos exemplos contrários, pessoas que perderam tudo por falta de administração correta dos bens materiais. Nenhum dos dois casos por culpa do destino. Se Deus quer o bem de todos, não faria uns se afundarem na miséria e outros nadarem em rios de dinheiro. Não tiraria a vida de uns aos vinte anos de idade e de outros aos cento e dois anos, e sim morreríamos todos com a mesma idade. O tempo de vida, a quantidade de aquisições materiais, tudo isso tem ligação com a forma de administração pública de cada local, com a forma de cada um conduzir suas vidas de forma segura e responsável ou não, com a história de cada civilização.

O destino não determina a vida e a morte de ninguém. Se fosse assim, não existiriam os que matam, os que roubam, os que prejudicam o outro. Deus já teria levado todos eles, e viveríamos em verdadeira paz.

A vantagem do ter nem sempre está em harmonia com a arte do ser.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

O HÁBITO TRAZ SEGURANÇA


Romeu voltou para casa mais cedo. Esperava encontrar a mulher e os filhos na mesa do jantar, como era de costume. Ao entrar pela porta da cozinha, percebeu um silêncio incômodo, diferente daquilo que costumava presenciar, já que as crianças o esperavam antes do sono diário. Na sala, a televisão estava em volume baixo, e a luz central, que iluminava o tapete cor de vinho, iluminava sozinha, já que as outras se encontravam apagadas. Romeu subiu as escadas, provavelmente Sara estaria lendo as lindas estórias infantis enquanto as crianças se afundavam nas imaginações, até pegarem no sono.

Enganou-se. A porta do quarto das crianças estava aberta, assim como a porta do quarto do casal, dele e de sua esposa.

Nenhum sinal de gente na casa. Tentou algum contato no celular da esposa, ligou na casa da sogra, também para a Beatriz, melhor amiga de Sara, mas não obteve êxito. Ninguém pôde informar-lhe o destino de Sara, nem das crianças. Relaxou. Ligou a torneira da banheira, jogou óleo de amêndoas, tomou seu sabonete com flagrância de perfume de rosas e preparou um delicioso e espumante banho de fim de noite, embora soubesse que a noite não teria fim, se não fosse ao lado de sua amada.

A noite só era noite se não fugisse do hábito. Esposa, crianças, barulho, luzes acesas pela casa toda, ao contrário, não seria a mesma coisa, as mesmas noites, os mesmos dias, a mesma segurança. O hábito traz segurança, a mudança o desconforto. Após o banho, vestiu-se, e pensou. A saída era esperar, mesmo que de maneira ansiosa. Existem momentos que não podem ser adiantados, e a única saída é a esperança, mesmo que não agrade como a certeza. Depois de tanto esperar, deitou em sua cama e cochilou.

Acordou e colocou a mão para o lado, já que os olhos mal abriam, por conta da claridade que vinha da janela lateral, talvez por ter se esquecido de fechá-la na noite passada, já que não programara o cochilo espontâneo. Era a primeira vez que tinha acordado com a luz do sol em seu rosto. Caso tivesse pensado, teria fechado a janela, como fazia todas as noites, desde que mudara para a Rua Jardim Florido, no verão de 2005. Não fechava, não por medo do amanhecer, mas por medo da insegurança, já que aquele bairro era estranho e barulhento, talvez pelos passos e vozes dos estudantes que faziam o caminho do regresso, do colégio até as suas casas. Acostumou-se com a janela fechada, mas a claridade da mudança trazia um ar agradável e um prazer diferente, que a mesmice não conseguia lhe proporcionar. Sua esposa estava dormindo como um anjo. Esfregou os olhos e confirmou o que via. Dirigiu-se ao quarto das crianças, e os filhos, Marcos de dez anos e Marcela de treze, também estavam em um sono empolgante.

Não sabia ao certo se era um sonho ou se realmente eles se fizeram ausentes na noite passada. Mas isso não importava. O importante é que agora eles estavam todos ali, completando a casa, dando um ar de segurança, um conforto conquistado pela certeza de estarem bem.

O importante é estar bem. 

terça-feira, 17 de maio de 2011

DECISÕES

Frequentemente nós somos colocados em situações que necessitam de decisões. Decisões essas que muitas vezes não nos dão a oportunidade de pensar na melhor opção. Quando temos que escolher entre duas coisas que nos fazem felizes, sempre ficará aquela sensação de vazio dentro de nós, pois um prazer jamais substitui o outro.

A minha vida, como todas as outras, sempre foi repleta de decisões. Muitas delas, principalmente as mais complicadas, estão bem frescas na minha memória. Já sofri antes de decidir entre continuar ou seguir em frente. Já sofri antes de decidir entre dois caminhos, assim como sofri também por simplesmente não ter decidido.

Atualmente, tenho tomado muitas decisões. Algumas delas me beneficiaram espiritualmente. Em outras, beneficiei mais do que fui beneficiado. Constantemente tomo decisões, e muitas delas estão me afetando. Talvez minha vida não estivesse tão boa caso não tivesse tomado algumas atitudes dolorosas, ou talvez, sem essas atitudes dolorosas, minha vida estaria boa do mesmo jeito, mas diferente, com prazeres diferentes, com pessoas diferentes. Acho que a autonomia de escolhermos os nossos caminhos é boa, porque quando imagino a minha vida atual, diferente do que ela está sendo, e me imagino longe dessas pessoas que eu tanto gosto, não consigo encontrar outra oportunidade de ter conhecido essas mesmas pessoas em outro lugar, caso minhas decisões tivessem sido diferentes. Apego-me muito às pessoas, e talvez esse seja um dos grandes motivos que me faz sofrer na distância de alguém. Sinto saudade delas, e principalmente dos momentos que juntos proporcionamos um dia.

Quando decidimos por um caminho, estamos abrindo mão de lugares, pessoas, momentos diferentes daqueles que iremos viver. Isso não quer dizer que escolhemos caminhos errados, porque ou você sairá melhor do que se tivesse escolhido o outro, ou você sairá pior. Mas lembre-se de que quem irá pagar o preço de uma escolha particular, muito mais do que as pessoas que você envolverá, é você mesmo. O principal preço é você quem paga, e se serão preços agradáveis, prazerosos, lucrativos, isso seus passos que determinarão. Cada escolha nos conduz a lugares diferentes, e cada desafio vencido é uma escolha: a de persistir.

Já fiz algumas escolhas que foram contra a minha vontade, mas que foi a única saída que encontrei para que todos os envolvidos se saíssem bem. Nossas escolhas, por mais particulares que seja, nunca envolverá somente nós mesmos, mas todos que estarão vivenciando cada momento. Pensando atualmente, há alguns dias fiz uma escolha, não pensando somente em mim, como em tudo que eu envolveria e prejudicaria caso escolhesse pelo caminho do coração. Ainda não estava no momento de abrir mão de tanta coisa assim, pensando no bem geral. Nenhum sonho, nenhuma vontade, nenhum momento é conquistado sozinho, pois precisamos de pessoas para cumprir aquilo que queremos, por mais particulares que seja. Preocupando-me não só comigo, como no resultado e no reflexo que isso causará entre as pessoas que comigo vivem, tomo decisões muitas vezes dolorosas, mas que em longo prazo compensará. Por enquanto, vivo um dia de cada vez, pois foi uma forma que encontrei de refugiar-me desse futuro incerto.






“O bem particular é resultado do bem geral. Quem quiser ser feliz há-de convencer-se de que sacrificou ao bem geral uma parte dos seus prazeres individuais” (Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco).